Publicado: 15 de março de 2021, 08:33

Mulheres são protagonistas nos planos de negócios produtivos do Projeto Dom Távora


“Houve um divisor de águas dentro do Projeto Dom Távora, que foi a implementação das Cadernetas Agroecológicas para registrar e visibilizar essa produção que as mulheres protagonizam no seu cotidiano, a partir das relações que constroem com a natureza e com outras pessoas enquanto guardiãs da sociobiodiversidade”, afirma Rodica Weitzman.

Dados do Projeto Dom Távora revelam conquistas importantes nas relações de gênero durante a implementação dos Planos de Negócios apoiados no interior sergipano. Entre as 7.752 pessoas capacitadas em Sergipe, as mulheres são maioria absoluta em todos os eventos de capacitação, formação técnica e intercâmbio, totalizando 4.196 mulheres – 54% dos participantes. Dos planos de negócios, os indicadores de público também apontam um alcance expressivo com participação e envolvimento direto de 2.974 mulheres (49%), enquanto os homens foram 3.082 dos participantes nas atividades produtivas.

Os números são positivos, mas a consultora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Projeto, Daniela Bento, avalia que os desafios ainda são muitos. Segundo ela, historicamente, o trabalho realizado pelas mulheres é considerado inferior, invisível e desvalorizado, enquanto ainda se naturaliza a ideia de que trabalho doméstico e os cuidados com a família são uma responsabilidade quase que exclusiva das mulheres. Dados da FAO (2017) apontam que as mulheres rurais no Brasil desempenham uma jornada semanal não remunerada de 27,5 horas, incluindo atividades domésticas, enquanto os homens dispensam apenas 5,2 horas semanais. Os dados corroboram com a pesquisa realizada pelo Semear Internacional junto aos seis projetos apoiados pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) no Brasil, envolvendo mulheres que aplicam Cadernetas Agroecológicas como ferramenta de monitoramento da produção feminina, entre eles o Projeto Dom Távora. Nesse caso, para 81,16% das agricultoras entrevistadas, são elas as principais responsáveis pelas atividades domésticas.

Dados da Coordenação de Desenvolvimento de Capacidades do Projeto Dom Távora demonstram que do total de mulheres atendidas, 1.113 (18%) delas participam em projetos com mais de uma atividade produtiva, como avicultura alinhada com horticultura e caprinocultura; outras 828 (14%) participam exclusivamente da criação de ovinos e caprinos. Os arranjos produtivos do artesanato e corte costura têm a participação de 651 (11%) mulheres; em outros arranjos, de plantio ou beneficiamento de produtos agrícolas (coco, arroz, mandioca) e apicultura, registra-se a participação de 307 mulheres (5%). Outras 252 delas (4%) participam da cadeia produtiva da pesca artesanal ou intensiva.

Em encontro virtual realizado pela Secretaria de Estado da Agricultura de Sergipe (Seagro), no último dia 08 de março, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, a consultora de gênero do FIDA, Rodica Weitzman, falou sobre as diretrizes da organização internacional e as contribuições do Projeto Dom Távora para o fortalecimento e a visibilidade do trabalho das mulheres. “O FIDA tem feito um esforço para apoiar, em todo o país, projetos de desenvolvimento que trazem um olhar aguçado para a contribuição das mulheres; construindo uma estratégia internacional de gênero em que as mulheres sejam priorizadas. Não apenas para aliviar os sintomas que têm raízes estruturantes – que são as desigualdades sociais de gênero -, mas para promover soluções que vão ajudar as mulheres a saírem da situação de pobreza e vulnerabilidade social, levando em consideração uma abordagem transformadora que envolve três componentes: o empoderamento econômico; empoderamento político; e a divisão justa do trabalho doméstico”, pontuou.

Transformações
Segundo a consultora do FIDA, o projeto traz conquistas importantes para transformações nas relações de gênero, raça e etnia. Para ela, as mulheres exercem diversas funções, enquanto pescadoras, artesãs, quilombolas, agricultoras ou criadoras de pequenos animais, múltiplas identidades que deveriam ser reconhecidas. “Houve um divisor de águas dentro do Projeto Dom Távora, que foi a implementação das Cadernetas Agroecológicas para registrar e visibilizar essa produção que as mulheres protagonizam no seu cotidiano, a partir das relações que constroem com a natureza e com outras pessoas enquanto guardiãs da sociobiodiversidade”, afirma Rodica Weitzman.

Em 12 municípios, 112 agricultoras participaram deste trabalho significativo, no qual se vê dois destaques: primeiro, o valor médio da produção protagonizada por cada mulher foi de R$ 1.645 durante seis meses, o que demonstra o seu potencial produtivo a partir do espaço dos quintais; segundo, ficou evidente o processo de auto-organização de grupos de mulheres. “O trabalho mostrou a importância de fortalecer os grupos de mulheres, especialmente nos planos de negócio onde elas tinham algum tipo de engajamento, mas com as cadernetas ficou ainda mais visibilizado. Houve um esforço da equipe técnica do projeto e dos parceiros em realizar rodas de conversas, oficinas, podcasts e outras atividades lúdicas pedagógicas que ajudam a fortalecer a organização das mulheres. Por isso quero dar parabéns ao Projeto e para as mulheres que vêm se organizando cada vez mais”, avaliou a representante do FIDA.

Segundo ela, o Dom Távora é o projeto que mais dá apoio e visibilidade ao trabalho das mulheres no artesanato, dentre todos os projetos apoiados pelo FIDA no semiárido. “Não se restringe a um tipo de artesanato (palha, cerâmica e vários bordados). Essa diversidade testemunha as tradições culturais, demonstra a riqueza transmitida de geração para geração e o papel fundamental das mulheres na manutenção deste patrimônio cultural. Outro indicador importante dos avanços do projeto tem a ver com esta dimensão do empoderamento político. Hoje vemos uma representação mais expressiva, uma vez que muito mais mulheres têm ocupado cargos na gestão das associações e de outras organizações de base comunitária. O projeto vem incentivando a participação das mulheres nas comissões de licitação ou de compra, reconhecendo o lugar da mulher na gestão financeira dos planos de negócio. Enfim, o Projeto Dom Távora está deixando várias sementes. Agora apenas falta regar estas sementes com cuidado para que possamos deixar como legado plantas fortificadas que crescem em terras adubadas. Assim, vamos abrindo caminhos para garantir a sustentabilidade das estratégias que foram colocadas na prática na região semiárida do Sergipe”, completou Rodica.

Sobre o resultado do trabalho das mulheres, o secretário de estado da Agricultura , André Bomfim, destacou os diversos valores. “O valor do trabalho das mulheres não está apenas no econômico, mas também na valorização do papel da mulher nas relações sociais e familiares, na produção agroecológica e na segurança alimentar, pois são responsáveis por garantir a produção de uma alimentação saudável. Nossa imensa gratidão e respeito pelo trabalho das mulheres do campo”, disse, André Bomfim.

Mulheres empoderadas
A roda de conversa realizada pela Seagri no Dia Internacional da Mulher trouxe testemunhos de mulheres que participam do Projeto Dom Távora, como Ana Maria, produtora rural de caprinos no povoado Cacimba Nova, em Poço Verde; Dona Zefinha, agricultora quilombola e guardiã de sementes crioulas do povoado Sítio Alto, em Simão Dias; Xifronese Santos, agricultora e representante das bordadeiras quilombolas da comunidade Caraíbas. O evento também contou com a participação da vice-governadora Eliane Aquino, e da ex-secretária de Estado da Agricultura, Rose Rodrigues.


Atualizado: 15 de março de 2021, 08:33
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