ENTREVISTA

“O campo em Sergipe é produtivo, são 231 mil pessoas ocupadas no setor agropecuário

A produção no campo em Sergipe vem crescendo, gerando empregos, rendas e conquistando posições de destaque

A produção no campo em Sergipe vem crescendo, gerando empregos, rendas e conquistando posições de destaque. No ano passado, o IBGE contabilizou 20 tipos de cultura no estado, divididas entre lavouras temporárias e permanentes, colocando o milho, a laranja e a cana de açúcar como as principais, sendo que o milho já representa 50% do valor de produção. A soma das três principais culturas representa 70% do valor da produção agrícola sergipana. Para se ter uma ideia, em 2022 a produção da agricultura sergipana atingiu r$ 2,14 bilhões. No segmento pecuário, o alto sertão, o agreste central e o centro-sul sergipano concentraram 73% do rebanho bovino de Sergipe. No cargo de Secretário de Estado da Agricultura desde agosto de 2021, Zeca Ramos da Silva traz, nesta entrevista ao Jornal da Cidade, dados do cenário agropecuário que revelam uma agricultura em crescimento, com imensa função social quando trata da segurança alimentar e econômica, considerando que a produção impacta desde a balança comercial até a renda familiar. Com a experiência de produtor rural, Zeca da Silva também pontua a existência de uma tendência de crescimento deste setor, quando se leva em consideração os investimentos feitos pelos agentes financeiros, os incentivos governamentais, além da força de vontade dos produtores e a demanda crescente do mercado consumidor. Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

Por Eugênio Nascimento

JORNAL DA CIDADE – Sergipe é um bom estado para a produção agrícola? E para a criação de gado bovino? Por quê?
ZECA DA SILVA – São várias as condições que favorecem a produção agrícola e pecuária em nosso estado. Além da geração e adaptação de materiais genéticos propícios às condições climáticas da região Agreste, outros fatores que contribuem para nossa agropecuária são a assistência técnica, a instalação de empresas de insumos e máquinas, a presença de agentes financeiros oferecendo mais crédito, e a intensificação da motomecanização e demais tecnologias de automação agrícola. Não podemos deixar de citar também as boas condições da infraestrutura viabilizada pelo governo, como estradas e o Porto de Sergipe, que a partir de 2023 começou a exportar o milho sergipano, os incentivos fiscais do estado, e evidentemente, os preços dos nossos produtos que estão entre as principais commodities brasileiras, a exemplo do milho, laranja, cana-de-açúcar e arroz. Um grande sinal de que Sergipe é bom para a agropecuária é o sucesso do Sealba Show, a maior vitrine da agropecuária regional, que na terceira edição, realizada agora em 2024, movimentou mais de R$ 300 milhões com participação de mais de 175 marcas do agronegócio. Temos o melhor rebanho bovino do Nordeste e um dos melhores do Brasil.

JC – Quais são os principais produtos agrícolas de SE? Qual é a produção média de cada um? Geram quanto em receita para Sergipe?
ZS – Essas são perguntas muito boas porque dão a oportunidade de dizermos que Sergipe se destaca no âmbito regional e até nacional em várias culturas. A Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), publicada pelo IBGE ano passado, contabilizou 20 tipos de cultura no estado de Sergipe, divididas entre lavouras temporárias e permanentes, colocando o milho, a laranja e a cana de açúcar como as principais, sendo que o milho já representa 50% do valor de produção. A soma das três principais culturas representa 70% do valor da produção agrícola sergipana. Para se ter uma ideia, em 2022 a produção da agricultura sergipana atingiu R$ 2,14 bilhões, a maior da série histórica iniciada em 1974, em termos nominais. Oficialmente a produção sergipana de milho, em 2023, foi de 986.951 toneladas, colocando o estado como o 4° em produção e o 1º em rendimento médio do Nordeste brasileiro, com 5.483 Kg/h. Mas essa produção pode ser maior ainda, porque não contabiliza o milho que fica aqui no estado para forragem e ração animal. Acredito que já passamos de 1 milhão de toneladas. Outras culturas se destacam no ranking, a exemplo do arroz, com a produção média de 39 mil toneladas, somos o 3º produtor do NE; a laranja com 400 mil toneladas, mantém o estado como o 5º produtor nacional; o coco- -da-baía, com 160 milhões de frutos, coloca Sergipe na 4ª colocação nacional; a batata- -doce é outro exemplo, com 64 mil toneladas, cerca de 18% da produção regional, somos o segundo do NE.

JC – Quais são os municípios que mais produzem essas culturas?
ZS – Temos algumas culturas consolidadas não apenas nos municípios, mas em termos de região. Por exemplo, percebemos uma grande expansão da cultura do milho no semiárido sergipano, concentrando o maior volume nos municípios de Simão Dias e Carira. Além disso, outras áreas agrícolas se firmaram, tais quais a citricultura, na região Sul e Centro Sul, onde Cristinápolis, Itabaianinha e Lagarto se apresentam como os principais produtores. A cocoicultura, na faixa costeira, tem como principais municípios Neópolis, Estância e Santa Luzia. E a cana-de-açúcar, com destaque para Laranjeiras, Capela, Japoatã e Japaratuba, na zona do Cotinguiba.

JC – Qual é o rebanho de bovinos, caprinos, ovinos e galináceos de Sergipe? Quais são os municípios que mais têm?
ZS – Temos um rebanho bovino com cerca de 1,2 milhão de animais que vem melhorando muito em termos de qualidade genética. O rebanho de pequeno porte como caprinos está em torno de 56 mil animais e 490 mil ovinos concentrados em Poço Verde e Tobias Barreto. O plantel de suínos está em torno de 440 mil animais, concentrados nos municípios de Glória e Poço Verde. Um dos pontos fortes da produção sergipana de suínos é a confiabilidade na procedência do rebanho. Sergipe recebeu e mantém da Organização Mundial de Sanidade Animal (OIE) a certificação internacional como área livre da Peste Suína Clássica (PSC). Já os galináceos são cerca de 11 milhões de aves comerciais, mais 600 mil aves de subsistência, ou seja, aquelas que não são para consumo próprio do agricultor familiar.

JC – Onde está concentrado o rebanho? Todo nosso rebanho é de corte?
ZS – Então, podemos dizer que, no contexto territorial, o Alto Sertão, o Agreste Central, o Centro-Sul Sergipano concentraram 73% do rebanho bovino de Sergipe. Grande parte do gado é, realmente, para corte, e temos quatro frigoríficos com certificação e inspeção estadual para atender a demanda de carne local. Do total de 1,2 milhão do rebanho bovino, cerca de 700 mil são fêmeas em condições de lactação, numa demonstração da força também do gado leiteiro estadual.

JC – A produção de leite é expressiva?
ZS- Veja, é importante dizer que, embora a participação do estado seja modesta em termos de vacas ordenhadas, produção e valor da produção de leite, a produtividade média de leite por vaca/ano é superior 5,81 % em relação à média do Brasil e 64,42 % em relação à média do Nordeste. Nossa produtividade é maior que a média brasileira com 2.336 litros/vaca/ ano, ao mesmo tempo que a média brasileira é de 1.343 litros/vaca/ano. A produção anual de leite em 2023 foi de 435.577 milhões de litros. Outro destaque são as agroindústrias de leite. A aquisição e industrialização de leite em Sergipe chegou a 112 milhões de litros, no primeiro trimestre de 2023, posicionando Sergipe no 10º lugar no ranking nacional em relação à aquisição e industrialização de leite cru e como o 2º estado do Nordeste. Esse cenário positivo não vem do acaso, além do esforço dos criadores em investir em tecnologia, a melhoria do rebanho tem contato com incentivos do governo, com o projeto de inseminação artificial e todo trabalho de controle da sanidade do rebanho.

JC – Quantas mil galinhas de granja temos anualmente em SE? As poedeiras geram quantos ovos?
ZS – Como falei anteriormente, são 11 milhões de aves produzidas anualmente em Sergipe. A criação de galinhas em sistema intensivo (granja) é destaque, sobretudo, em São Cristóvão e Areia Branca, que juntos correspondem a mais de 50% do efetivo. Um dado interessante publicado pelo Banco do Nordeste, agora em 2024, coloca Sergipe como a maior produção de ovos em todos os estados da região Nordeste. A produção no estado subiu de 7,3 milhões para 8,1 milhões de dúzias de ovos, um aumento de 11,45%. Sergipe também registra o maior crescimento em relação ao número de alojamentos (galinhas poedeiras) em todo o país: são mais de 1,3 milhão de aves alojadas no segundo trimestre, que totalizam uma ampliação de 14,38%. É possível que este crescimento tenha relação com a alta produção de milho, que é um dos principais insumos para a avicultura.

JC – O campo emprega quantas pessoas em SE? Sabe o salário médio desses trabalhadores?
ZS – De acordo com dados do IBGE são 231mil o número de pessoas ocupadas no setor agropecuário, totalizando 11 no acumulado de 2023. O Caged não trabalha com rendimento, mas os dados da Relação Anual de Informações Sociais – RAIS 2021 dão conta de que o rendimento médio do trabalhador rural é de R$ 1.581,83.

JC – O Sertão de SE é produtivo!? Produz o quê?
ZS – Pode ser surpreendente para muitos, mas nosso Sertão é bastante produtivo. Como falei anteriormente, é lá que se concentra a produção de leite de vaca, ou seja, a bacia leiteira do estado, respondendo por 64% de toda a produção estadual e também do beneficiamento, pois é nessa região que se concentram as principais agroindústrias de leite. É no Sertão que se encontram os municípios maiores produtores de suínos. No Alto Sertão temos grandes áreas de produção de milho em grão e de forragem. Além disso, é onde está localizado um dos maiores perímetros públicos irrigados, o Califórnia. São 1.360 hectares irrigados e 373 lotes agrícolas onde se planta quiabo, milho e feijão-de-corda e tem um grande destaque para a fruticultura e outras produções como acerola, goiaba, aipim, abóbora e hortaliças. Lá foram produzidos 29.706t de alimentos em 2023, totalizando 45 milhões em valor de produção, destinada ao abastecimento local, a feiras e supermercados de Aracaju e Itabaiana, e que também chega à Bahia e a Alagoas. O Sertão sergipano é verdadeiramente um grande exemplo de resiliência e desenvolvimento de uma região, mesmo com as dificuldades climáticas.

JC – Os nossos perímetros irrigados são quantos? Ficam em quais municípios? Produzem o quê?
ZS – Atualmente, o governo do estado mantém seis perímetros irrigados públicos: Califórnia, em Canindé de São Francisco; Jabiberi, em Tobias Barreto; Jacarecica I, em Itabaiana; Jacarecica II, entre Malhador, Itabaiana e Riachuelo; Piauí, em Lagarto; e Poção da Ribeira, entre Areia Branca e Itabaiana. A gestão é executada por meio da Companhia de Desenvolvimento Regional de Sergipe (Coderse), vinculada à Secretaria de Estado da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca (Seagri). Os perímetros são grande fonte de produção de alimentos para a população e riqueza para os produtores. São hortaliças, raízes, frutas, enfim, uma diversidade de alimentos que chegam à mesa da população.

JC – É significativo o valor de produção?
ZS – Para se ter ideia do valor de produção, em cinco dos perímetros irrigados com vocação agrícola, foi registrado um quantitativo de 110.155 toneladas de alimentos produzidos em 2023, que ocuparam a área plantada de 4.971,55 hectares e tiveram um valor de produção estimado em R$ 205.167.139,88. No perímetro Jabiberi, com vocação à pecuária, foram produzidos 2.295.500 litros de leite, o equivalente a R$ 5.096.010,00.

JC- Vale a pena investir na agricultura e na pecuária de Sergipe? Há tendência de crescimento?
ZS – Os números que mostramos aqui em termos de produção, de geração de riqueza e desenvolvimento de nossas regiões não deixam dúvidas da importância da agricultura e da pecuária para a segurança alimentar e para o desenvolvimento econômico do estado, a exemplo do suco e derivados da laranja que impactam diretamente na balança comercial. Sim, a tendência é de crescimento. O governo do estado, reconhecendo a importância do setor está investindo R$ 400 milhões em três grandes ações: a construção da Adutora do Leite; implementação da Citricultura Sustentável; e a implantação do Projeto “Sertão Vivo”, esse último com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) para a região do Semiárido. Além das dezenas de ações permanentes feitas por meio da Coderse e da Emdagro, voltadas para a segurança hídrica, defesa animal e vegetal, regularização fundiária, pesquisa e assistência técnica aos produtores.

JC – É um leque de oportunidades?
ZS – Sim, de forma resumida dentro desse contexto de oportunidades que apontam para o crescimento do setor, nós temos em Sergipe produtores que têm visão de futuro e investem em tecnologia e no profissionalismo. Nós temos um governo que acredita e fomenta a agropecuária, temos agentes financeiros investindo bastante para fortalecer o setor e um mercado consumidor bastante favorável e crescente. Somado a todo esse leque de oportunidades, não podemos deixar de acreditar que o agronegócio – mesmo o pequeno, o da subsistência – seja parte importantíssima nas vidas brasileiras e sergipanas garantindo a segurança alimentar, aliás 77% das 93 mil propriedades rurais sergipanas são consideradas como agricultura familiar. Já citei no início da entrevista o grande sucesso da feira agropecuária Sealba Show, como exemplo do crescimento do setor. Outra demonstração do crescimento são os vários produtores que estão chegando a Sergipe para investir, por exemplo em fábrica de ração, áreas produtoras de milho, laranja e beneficiamento do arroz. Costumo dizer que onde há crédito, há tendência de crescimento, daí a grande contribuição dos agentes financeiros que fomentam este setor produtivo. Só por meio do Banese mais Agro foram investidos R$ 200 milhões para a agropecuária, na safra atual.

Fonte: Jornal da Cidade

Governo

Última atualização: 26 de fevereiro de 2024 12:22.

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